A virada bairro a bairro nas capitais
Nas 27 capitais, a margem de Lula sobre Flávio passou de −0,7 para +5,5 pontos entre os dois turnos. A virada chegou a quase todos os bairros, mas não com a mesma força. Ela foi maior onde, no 1º turno, mais gente tinha votado em branco ou anulado para presidente, e menor nos bairros centrais em que o voto já estava decidido.
Daniel Pessini Sobreira · 27 de outubro de 2026 · votação por seção do TSE nos dois turnos e cadastro de locais de votação
- 98,7%dos 36,1 mi de eleitores das capitais votam em locais onde a margem andou na direção de Lula.
- 256 × 0bairros que passaram de Flávio para Lula, contra nenhum no sentido oposto, entre os 2.539 com 3 mil eleitores ou mais.
- +3,0 a +7,8pontos de virada, dos locais com menos aos com mais brancos e nulos no 1º turno.
Cada ponto é um local de votação
O resultado por município mostra que a margem de Lula melhorou em quase todas as cidades. Dentro das capitais, onde votam 36,1 mi de eleitores, dá para descer à escala do bairro: o TSE publicou em 26/10 o resultado de cada seção nos dois turnos, e o cadastro de locais de votação traz o endereço, o bairro e as coordenadas de cada escola. Somadas as seções, são 10.882 locais. Escolha a capital e o que pintar no mapa; passe o cursor ou toque num ponto para ver o local.
Carregando o mapa…
A virada foi maior onde havia mais voto sem dono
Em cada capital, os locais de votação foram separados em dez grupos do mesmo tamanho, do que teve menos ao que teve mais votos brancos e nulos para presidente no 1º turno, sempre em relação à média da própria capital. No décimo com menos brancos e nulos (3,1% dos votantes), a margem de Lula andou +3,0 pontos. No décimo com mais (8,0%), andou +7,8.
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A relação é forte e aparece em quase todo lugar. Dentro de cada capital, cada ponto percentual a mais de brancos e nulos no 1º turno corresponde, em média, a 0,96 ponto a mais de virada, e só essa variável explica 36% da diferença de virada entre os locais (correlação de 0,60). Ela é positiva em 26 das 27 capitais e mais forte em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e João Pessoa (de 0,77 a 0,79). Com a margem do 1º turno, a terceira via e a variação do comparecimento na mesma conta, o efeito fica em 1,11 ponto. A terceira via quase não pesa, e o comparecimento pesa pouco.
O gráfico também mostra para onde foram esses votos. Nos locais com mais brancos e nulos, eles caíram de 8,0% para 4,6% dos votantes entre os turnos. Nos locais com menos, ficaram onde estavam (3,1% e 3,1%). É o mesmo padrão da análise da vitória, que estima que 65% de quem votou em branco ou anulou no 1º turno votou em Lula no 2º. Uma explicação possível é a urna do 1º turno, que pedia seis votos: parte desses eleitores deixou o presidente em branco ou errou o número e, no 2º turno, com um voto só, escolheu.
A virada não se concentrou onde Lula já era forte
Se a virada fosse uma questão de mobilizar o próprio eleitorado, ela seria maior nos bairros mais lulistas. Não foi. Divididos os locais das capitais em quatro grupos com o mesmo eleitorado, do mais favorável a Flávio ao mais favorável a Lula no 1º turno, a virada foi de +7,1 · +6,7 · +5,9 · +4,8 pontos. Em 17 das 27 capitais, o quarto mais lulista virou menos que o mais favorável a Flávio.
Parte disso é aritmética: onde um candidato já tem 70% dos votos, o mesmo deslocamento de eleitores move menos a margem do que onde a disputa está equilibrada. Para separar as duas coisas, calculamos, em cada capital, a virada que cada local teria se todos tivessem se deslocado na mesma proporção (ver o método). Em São Paulo, por exemplo, a virada ficou entre +5,2 e +6,4 pontos nos quatro grupos, perto do que a mudança proporcional prevê. O que separa um bairro do outro, dentro da mesma cidade, não é tanto a margem do 1º turno, mas a quantidade de voto que ainda não tinha dono.
Onde a virada foi maior, e onde quase não houve
Na maior parte das capitais, os bairros com a menor virada são bairros centrais e de renda alta, onde o voto já estava decidido e quase ninguém votou em branco. Em São Paulo, Santa Cecilia (−4,1), Higienopolis (−3,0) e Consolacao (−1,4). No Rio, Humaita (+0,3) e Flamengo (+0,6). Em Belo Horizonte, Santo Antonio (+1,6) e Savassi (+1,7). Em Brasília, Asa Norte (+1,6).
Os de maior virada estão nas bordas das cidades: Vila Hebe (+12,3) e Jardim Imperador (Zona Leste) (+12,1) em São Paulo, Acari (+12,9) no Rio, Capitão Eduardo (+10,7) em Belo Horizonte e Vale do Amanhecer (+10,4) no Distrito Federal. Neles, de 3,9% a 7,4% dos votantes tinham deixado o presidente em branco ou anulado no 1º turno, contra 2,0% a 3,5% nos de menor virada.
Ao todo, 256 bairros passaram de Flávio para Lula (2,95 mi de eleitores) e nenhum fez o caminho inverso. Em São Paulo foram 105, entre eles Vila Guarani, Saúde e Lapa; no Rio, 25, entre eles Praça Seca e Olaria; em Belo Horizonte, 36. A lista de cada capital está abaixo do mapa.
A virada capital por capital
Margem de Lula sobre Flávio, em pontos, só entre os dois. A virada por quarto vai do quarto do eleitorado mais favorável a Flávio no 1º turno ao mais favorável a Lula. A correlação mede a relação, dentro da capital, entre os brancos e nulos do 1º turno e a virada de cada local. Toque numa linha para ver a capital no mapa.
| Capital | Eleitores | Margem 1º → 2º | Virada | Virada por quarto (Flávio → Lula) | Brancos e nulos 1º → 2º | Correlação | Bairros que viraram |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| São Paulo SP | 9,14 mi | +5,0 → +11,0 | +6,0 | +6,2 · +6,4 · +6,1 · +5,2 | 6,5% → 4,4% | 0,61 | 105 de 819 |
| Rio de Janeiro RJ | 4,95 mi | −4,3 → +3,1 | +7,4 | +8,9 · +8,8 · +7,4 · +4,5 | 5,1% → 3,4% | 0,77 | 25 de 149 |
| Brasília DF | 2,26 mi | −14,8 → −8,6 | +6,2 | +7,6 · +7,2 · +6,6 · +3,6 | 3,2% → 3,4% | 0,73 | 7 de 59 |
| Belo Horizonte MG | 1,97 mi | −7,7 → −1,6 | +6,1 | +5,8 · +6,5 · +6,2 · +5,9 | 4,8% → 3,5% | 0,79 | 36 de 184 |
| Salvador BA | 1,96 mi | +41,4 → +46,5 | +5,1 | +4,4 · +5,6 · +5,1 · +4,6 | 7,3% → 4,3% | 0,52 | 2 de 129 |
| Fortaleza CE | 1,80 mi | +15,2 → +20,1 | +4,9 | +4,7 · +5,2 · +5,1 · +4,6 | 4,6% → 2,9% | 0,50 | 1 de 103 |
| Manaus AM | 1,48 mi | −18,8 → −11,7 | +7,1 | +7,2 · +7,2 · +7,2 · +7,0 | 3,3% → 3,3% | 0,19 | 1 de 60 |
| Curitiba PR | 1,42 mi | −30,9 → −24,6 | +6,3 | +6,6 · +6,6 · +6,6 · +5,3 | 3,8% → 3,4% | 0,63 | 1 de 62 |
| Recife PE | 1,22 mi | +17,9 → +22,5 | +4,5 | +4,4 · +4,9 · +4,7 · +4,1 | 5,0% → 2,8% | 0,60 | 0 de 77 |
| Porto Alegre RS | 1,06 mi | +7,4 → +11,7 | +4,3 | +4,4 · +4,6 · +4,4 · +3,6 | 4,0% → 2,7% | 0,67 | 5 de 73 |
| Belém PA | 1,05 mi | +4,6 → +10,0 | +5,4 | +5,4 · +5,5 · +5,6 · +5,0 | 4,7% → 2,5% | 0,42 | 10 de 49 |
| Goiânia GO | 1,02 mi | −31,9 → −25,3 | +6,6 | +6,9 · +6,9 · +6,9 · +5,7 | 3,1% → 3,0% | 0,46 | 0 de 108 |
| São Luís MA | 0,75 mi | +19,1 → +24,1 | +5,0 | +5,5 · +5,8 · +4,9 · +4,2 | 3,5% → 2,7% | 0,06 | 7 de 76 |
| Maceió AL | 0,65 mi | −12,1 → −4,0 | +8,1 | +7,5 · +8,2 · +7,7 · +8,7 | 5,6% → 3,0% | 0,63 | 8 de 39 |
| Campo Grande MS | 0,64 mi | −28,9 → −22,2 | +6,7 | +5,9 · +6,3 · +7,0 · +7,0 | 3,6% → 2,9% | 0,41 | 4 de 94 |
| Teresina PI | 0,59 mi | +32,2 → +36,1 | +3,9 | +4,8 · +4,1 · +3,8 · +3,1 | 4,0% → 2,8% | −0,02 | 2 de 62 |
| João Pessoa PB | 0,59 mi | +0,7 → +7,5 | +6,8 | +5,9 · +7,0 · +7,8 · +6,3 | 5,2% → 3,1% | 0,77 | 16 de 47 |
| Natal RN | 0,57 mi | +5,2 → +12,0 | +6,8 | +5,8 · +6,6 · +7,2 · +7,3 | 4,2% → 3,5% | 0,61 | 2 de 32 |
| Cuiabá MT | 0,46 mi | −25,8 → −19,2 | +6,6 | +5,6 · +6,4 · +6,9 · +7,2 | 3,1% → 2,4% | 0,53 | 2 de 61 |
| Florianópolis SC | 0,42 mi | −8,8 → −3,3 | +5,4 | +6,1 · +6,4 · +5,8 · +3,3 | 3,1% → 2,8% | 0,70 | 3 de 39 |
| Aracaju SE | 0,42 mi | +18,2 → +24,0 | +5,9 | +5,0 · +6,1 · +5,7 · +6,4 | 4,7% → 3,3% | 0,58 | 1 de 34 |
| Porto Velho RO | 0,37 mi | −30,3 → −23,3 | +7,0 | +6,5 · +7,2 · +7,0 · +7,2 | 2,7% → 2,3% | 0,49 | 0 de 46 |
| Macapá AP | 0,32 mi | −4,3 → +2,0 | +6,3 | +6,9 · +7,8 · +6,2 · +4,7 | 2,5% → 2,1% | 0,27 | 11 de 34 |
| Rio Branco AC | 0,27 mi | −40,1 → −33,1 | +7,0 | +8,4 · +6,5 · +6,9 · +5,9 | 4,0% → 4,5% | 0,23 | 0 de 27 |
| Vitória ES | 0,27 mi | −8,6 → −3,6 | +5,0 | +5,0 · +4,2 · +5,8 · +4,9 | 3,4% → 4,0% | 0,55 | 6 de 29 |
| Boa Vista RR | 0,24 mi | −58,7 → −51,7 | +7,0 | +6,8 · +7,4 · +7,1 · +6,6 | 2,2% → 2,0% | 0,05 | 0 de 32 |
| Palmas TO | 0,22 mi | −27,2 → −20,8 | +6,4 | +6,1 · +6,6 · +6,6 · +6,6 | 2,9% → 3,7% | 0,28 | 1 de 15 |
Como as contas foram feitas
- Dados. Votação por seção dos dois turnos para presidente (TSE, Dados Abertos, arquivo de 26/10/2026) e cadastro de locais de votação (TSE, 25/10/2026), com bairro, endereço, coordenadas e eleitorado de cada seção em cada turno. Os votos de cada candidato batem com a totalização oficial.
- Unidade. O local de votação (zona e local), com as seções somadas: 10.882 locais nas 27 capitais, 36,1 mi de eleitores. Ficaram de fora os locais de voto em trânsito e de presos provisórios e os com menos de 50 votos em Lula e Flávio no 1º turno (78 locais).
- Medidas. Margem de Lula sobre Flávio só entre os dois, em pontos; virada = margem do 2º turno − margem do 1º. Brancos e nulos em % de quem compareceu.
- Brancos e nulos (seção 2). Desvios em relação à média de cada capital, ponderados pelo eleitorado; mínimos quadrados ponderados, com e sem a margem do 1º turno, a terceira via e a variação do comparecimento. Coeficiente de 0,96 (erro-padrão robusto de 0,018), R² de 0,36; com os controles, 1,11 e R² de 0,52. Decis por capital, somados no gráfico.
- Mudança proporcional (seção 3). Em cada capital, o mesmo deslocamento em logit para todos os locais, ajustado para reproduzir o resultado da capital no 2º turno; a virada esperada de cada local sai da margem do 1º turno.
- Bairros. Nome do bairro no cadastro, normalizado, com os locais somados; entram os 2.539 bairros com 3 mil eleitores ou mais. Os nomes são os do cadastro do TSE, que às vezes junta ou separa bairros de um jeito diferente do da prefeitura.
- Limites. Resultados por lugar, não por pessoa: não dá para saber quem, dentro de um local, mudou o voto. O local de votação aproxima o bairro de moradia, mas não é igual a ele. Renda e escolaridade não foram medidas.
- Arquivos. bairros.json (resumo, capitais e bairros) e bairros-locais.json (cada local: coordenadas, eleitorado, margens, brancos e nulos, nome e bairro).
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