Agregador ponderado · modelo probabilístico · Eleição presidencial 2026

Placar 2026

Análise do erro das pesquisas e dos mercados preditivos no 2º turno, da mobilização e das redes. A apuração, a projeção e a previsão estão na página inicial.
Atualizado em
27 out 2026 · pesquisas, redes e seções
1º turno 04 out · 2º turno 25 out
Daniel Pessini Sobreira · modelo, dados e painel
Análise · Placar 2026 · pesquisas, mercados preditivos, redes sociais e votação por seção

O que as pesquisas e os mercados não viram

Na manhã de 25 de outubro, as pesquisas davam Flávio Bolsonaro à frente por 1,8 ponto de margem e o Polymarket pagava 20% por uma vitória de Lula. Lula venceu por 3,6 pontos. Esta análise mede o erro, procura onde ele estava e testa duas explicações para a virada: uma mobilização espontânea do eleitorado de Lula depois do susto do 1º turno e a mudança da campanha para as redes e para comunidades como as de fãs.

Daniel Pessini Sobreira · 27 de outubro de 2026 · 18 pesquisas finais e 13 do 1º turno, votação de 496.904 seções do TSE com o perfil do eleitorado, levantamentos de redes e de mercados com fonte em cada número

  1. 18 de 18últimas pesquisas de cada instituto subestimaram Lula, de 2,3 a 7,8 pontos de margem. Só 2 acertaram quem ganhava.
  2. +6,3 mivotos líquidos de Lula vieram de quem votou em branco, anulou ou não foi votar no 1º turno, contra 0,3 mi da terceira via.
  3. 111 × 31 mide interações nas redes entre 5 e 17/out (Bites). Antes do 1º turno, era 84 × 74.
1 · O tamanho do erro

Todas as pesquisas erraram para o mesmo lado

Cada ponto abaixo é a última pesquisa de um instituto, com campo terminado entre 20 e 24 de outubro. A média dava Flávio +1,8; a urna deu Lula +3,6. A distância, 5,3 pontos de margem (cerca de 2,7 ponto no voto de cada candidato), não é ruído de amostra: o erro-padrão da média de 18 pesquisas com 2 a 15 mil entrevistas fica abaixo de 1 ponto, e nenhuma delas errou a favor de Lula. Só a Vox Brasil (+1,2) e a Colectta deram Lula à frente, e mesmo elas o subestimaram.

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PresencialTelefoneOnlineNão informado

O método não salvou ninguém. As de telefone (robô ou entrevistador) erraram 5,8 pontos em média; as presenciais, 4,5; as duas online, 4,8. A Datafolha, casa de referência, ficou em Flávio +1,1, e a Quaest no mesmo lugar.

Na série histórica, isso não tem precedente. De 2006 a 2022, o erro médio das pesquisas na véspera do 2º turno nunca passou de 1,2 ponto de margem, e os institutos erravam para os dois lados: em 2018 a média acertou, mas a Vox errou 10 pontos para Haddad e a Paraná Pesquisas 11 para Bolsonaro. Em 2026 o erro médio foi de 5,3 pontos e todos os 18 institutos erraram na mesma direção.

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Barra: erro médio de margem dos institutos na véspera (positivo = a favor do candidato de esquerda). Traço: do instituto que mais errou para um lado ao que mais errou para o outro. Fonte: base de calibração do Placar (2006 a 2022) e pesquisas de 2026.

2 · Dois erros diferentes

O erro do 1º turno não era o do 2º

No 1º turno as pesquisas também erraram, mas de outro jeito. A média das 13 últimas rodadas quase acertou o voto de Lula (44,5% dos válidos contra 45,2% na urna) e subestimou Flávio em 3,9 pontos. A diferença saiu da terceira via: Cury, Renan, Caiado e Zema somavam 12,3% nas pesquisas e tiveram 7,8% na urna. Foi voto útil na última hora, e ele foi para Flávio.

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Quem leu o 1º turno como prova de que as pesquisas "escondem" o eleitor de direita, como em 2018, esperou o mesmo no 2º turno e descontou as pesquisas a favor de Flávio. Os mercados fizeram isso, e o próprio Placar fez em parte até 22/out, quando a revisão v56 deixou de transferir o erro do 1º turno para o 2º, depois da crítica de Tinoco. No 2º turno não havia terceira via para murchar, e o erro mudou de sinal: as pesquisas davam a Flávio 50,9% dos válidos, e ele teve 48,2%.

3 · A trajetória

As pesquisas andavam para Lula, e a chance quase não andou

Na primeira semana depois do 1º turno (campo até 9/out), Lula tinha 47,9% dos válidos em média. Na última (campo a partir de 20/out), 49,1%. A linha é a média móvel de cinco dias; o ponto à direita é a urna.

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As pesquisas subiram dois pontos para Lula em duas semanas e ainda assim pararam abaixo do resultado. O movimento era a regra: em 2014 e 2018, quem estava atrás na primeira pesquisa do 2º turno ganhou de 6 a 10 pontos de margem até a véspera. Em 2026 a melhora de Lula nas pesquisas foi de cerca de 2,3 pontos, e a urna mostrou mais 5,3.

A chance de Lula, no Placar e no Polymarket, ficou presa entre 12% e 25% o tempo todo. O mercado saiu de 36,5% na manhã de 4/out para 14,5% depois da apuração e chegou a 10,5% em 9/out. Depois disso, mesmo com as pesquisas andando, o contrato de Lula passou 62% das horas abaixo de 20 centavos.

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PolymarketPlacar (manchete)MCMC do Placar
4 · Os pontos cegos

Onde estavam os votos que as pesquisas não contaram

Lula ganhou 10,38 mi de votos entre os turnos e Flávio, 3,72 mi. A estimativa dos fluxos de votos, feita seção a seção na análise da vitória, mostra de onde eles vieram. Passe o cursor sobre as faixas.

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Dois estoques decidiram a eleição, e as pesquisas tinham dificuldade com os dois:

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O erro também teve lugar. Na última Datafolha com recortes (22/out), a margem de Lula no Sudeste era −10,9; na urna, −5,5, um erro de 5,4 pontos na região que tem 42% do eleitorado. No Nordeste o erro foi de 1,9; no Sul, 2,3.

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Datafolha, 22/outUrna (cor de quem venceu)
5 · Hipótese 1

O susto do 1º turno e a mobilização que veio de baixo

A primeira hipótese diz que o resultado de 4/out chocou o eleitorado de Lula e acordou uma mobilização orgânica e autônoma, que só em parte foi organizada quando o canal de WhatsApp de André Janones cresceu. A linha do tempo abaixo junta o que foi possível datar, com fonte em cada item.

A ordem dos fatos é compatível com a hipótese. Na noite do 1º turno e no dia seguinte, perfis de fãs ofereceram seus canais a Lula por conta própria, e redes de voluntários sem ligação formal com a campanha ("Vamos Virar o Jogo", "Vira-Voto Brasil") lotaram grupos de WhatsApp e Telegram. O canal "Exército do Lula" já existia desde abril e tinha cerca de 55 mil seguidores na manhã de 5/out. Pelo relatório técnico do TSE sobre o canal, ele chegou a meio milhão às 7h19 de 6/out e a 1 milhão às 15h55 do mesmo dia, puxado por um texto-convite reencaminhado 344 mil vezes, antes do vídeo em que Lula pediu adesão (7/out). Terminou a campanha com 10,9 mi, cinco vezes a "Tropa do Flávio" de Nikolas Ferreira (2,1 mi). O artigo O susto que mobilizou testa esta hipótese em detalhe.

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Os votos também apontam nessa direção. O comparecimento subiu mais nas seções onde Lula era mais forte no 1º turno (+2,1 ponto, contra +1,3 nas mais favoráveis a Flávio), sempre comparando seções da mesma cidade. E as pesquisas se moveram já na primeira semana: a PoderData passou de Flávio +5 em 7/out para +2 em 12/out, antes de o canal passar de 4 milhões.

O que sustenta

A mobilização existiu e foi imediata: fãs, redes de voluntários, o canal de Janones (de 55 mil a 1 milhão de seguidores em 33 horas) e atos (cerca de 261 mil pessoas na Paulista em 11/out, pela área ocupada). O comparecimento subiu como não subia desde pelo menos 2014, e mais nas seções lulistas.

O que não sustenta

"Orgânica e depois controlada" não descreve bem o que houve: a adesão em massa aconteceu dentro de uma estrutura centralizada desde 5/out (o TSE a descreve como "coordenada, centralizada e sincronizada"), pessoal de Janones e não da campanha. Ela organizou a energia desde o início, não a conteve depois. Não há medida do tamanho das redes espontâneas nem estudo causal do efeito no voto; o aumento do comparecimento foi pequeno (1,9 ponto) e explica menos da virada que os brancos e nulos.
6 · Hipótese 2

As redes, os fandoms e o eleitor jovem

A segunda hipótese diz que a campanha mudou de estratégia depois do 1º turno e passou a falar mais pelas redes e com comunidades específicas, como as de fãs. A mudança é datada. Em 7/out Lula se reuniu com criadores de conteúdo e jovens deputados eleitos, a campanha montou uma sala de criadores no comitê e ele passou a gravar vídeos de celular, de produção simples. Em 12/out Sidônio Palmeira saiu da Secom para a campanha. Lula tinha chamado a própria campanha de "a menos organizada" desde 1989.

O efeito nas redes foi imediato e grande. Antes do 1º turno, as interações com os perfis dos dois candidatos estavam perto do empate. Depois, Lula passou a ter de três a quatro vezes mais. No índice de popularidade digital da Quaest, Lula saiu de 9,3 pontos atrás de Flávio em 4/out para 6,5 pontos à frente em 24/out.

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LulaFlávioInterações em milhões, medidas pela Bites; janelas e redes diferentes entre os períodos.

Isso não veio de anúncio pago. Até 22/out, Flávio tinha declarado ao TSE R$ 18,0 milhões em impulsionamento, contra R$ 2,7 milhões de Lula. A vantagem de Lula foi orgânica: perfis próprios, aliados e militância. Do lado de Flávio, o maior motor foi Nikolas Ferreira, que teve mais interações que o próprio candidato e um vídeo sobre o Nordeste com mais de 150 milhões de visualizações. Hoje, 27/out, os perfis no Instagram estão assim:

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Seguidores no Instagram em 27/out/2026, lidos nos próprios perfis (o de Lula com o número exato, os demais arredondados pelo Instagram). Ficaram de fora do gráfico perfis de artistas muito maiores, como o de Anitta (61 milhões), que declarou voto em Lula em 9/out. O perfil de Erika Hilton não pôde ser lido no endereço consultado; a imprensa registrava cerca de 5,3 milhões de seguidores em 6/out. Os totais de cada grupo somam só os perfis do gráfico.

Se a estratégia digital e os fandoms moveram votos, o lugar para procurar é o eleitor jovem. Na Datafolha, a margem de Lula entre os eleitores de 16 a 24 anos foi de −7 em 7/out para +5 em 22/out, a maior mudança entre todos os recortes. Mas a amostra desse grupo tem poucas centenas de entrevistas e a margem de erro de uma diferença assim passa de 10 pontos.

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A votação por seção permite um teste mais firme. O TSE publica o perfil do eleitorado de cada seção (idade, escolaridade, sexo), e dentro da mesma cidade as seções têm composições muito diferentes. Separadas em dez grupos, das com menos às com mais eleitores de 16 a 24 anos, a virada vai de +5,0 a +6,6 pontos. Com todas as características na mesma conta, um desvio-padrão a mais de jovens corresponde a +0,35 ponto de virada; o mesmo desvio a mais de brancos e nulos no 1º turno, a +0,51; e de eleitores com ensino superior, a −0,83.

Agrupar as seções por
e mostrar

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Pontos de virada (margem do 2º turno − margem do 1º), pontos de comparecimento ou votos líquidos de Lula por 100 eleitores, em cada décimo das 496.904 seções. As seções são ordenadas pela diferença em relação à média do próprio município. A linha tracejada é a média nacional.

Os jovens viraram mais, mas não foram votar mais: no décimo de seções com mais jovens, o comparecimento subiu +0,9 ponto, abaixo da média (+1,8). Onde o comparecimento mais cresceu foi nas seções de eleitores mais velhos (+0,36 ponto por desvio-padrão). E o maior ganho líquido de Lula não veio do perfil típico das redes e dos fandoms: veio das seções com menos escolaridade e mais brancos e nulos no 1º turno (5,8 votos por 100 eleitores no décimo com menos ensino superior, 2,1 no com mais).

O que sustenta

A mudança de estratégia é datada (7 a 12/out) e o resultado nas redes foi claro: Lula passou a ter três a quatro vezes as interações de Flávio, sem dinheiro de anúncio. Os jovens foram o grupo que mais se moveu na Datafolha, e as seções com mais jovens viraram mais, mesmo dentro da mesma cidade.

O que não sustenta

A aproximação com os fandoms partiu dos fãs, não de um plano da campanha. O efeito dos jovens existe, mas é pequeno perto do de brancos e nulos e escolaridade; não há evidência de que o digital tenha levado jovens às urnas. As redes mostram atenção e engajamento, não voto; parte dessa atenção é de quem já votava em Lula.

O artigo A virada digital testa esta hipótese e as falhas da Meta em detalhe, com a série completa dos reels, a conectividade dos municípios e o perfil do eleitorado por seção.

As duas hipóteses se completam mais do que competem. A energia surgiu de baixo, foi canalizada por um canal semiautônomo e por uma campanha que mudou de formato, e o voto que ela trouxe veio sobretudo do eleitor que no 1º turno não tinha escolhido ninguém: o que anulou, o que votou em branco e o que ficou em casa.

7 · As redes por dentro

Volume, alcance e repercussão: a disputa nas redes dia a dia

Os números agregados das empresas de monitoramento mostram quem ganhou as redes, mas não como. Para ver a dinâmica, lemos diretamente no Instagram, em 27/out, todos os reels publicados desde 28/set pelos dois candidatos e pelos dois aliados que mais mobilizaram cada lado, André Janones e Nikolas Ferreira: 545 vídeos, com visualizações, curtidas e comentários de cada um. A data de cada vídeo sai do próprio código da publicação.

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Lula (linha cheia) e Janones (tracejada)Flávio (linha cheia) e Nikolas (tracejada)Soma dos reels publicados em cada dia, contados em 27/out.

Na semana anterior ao 1º turno, os reels de Lula somavam 45,1 milhões de visualizações por dia, e os de Flávio, 40,1 milhões: um empate. Entre 5 e 25/out, Lula publicou 244 reels e passou a 117,7 milhões por dia (2,47 bilhões no período), 2,6 vezes o ritmo anterior. Flávio ficou onde estava: 43,0 milhões por dia em 73 reels. Os picos de Lula coincidem com os marcos da campanha: os vídeos de celular de 7/out (25,3 milhões de curtidas somadas naquele dia, o recorde do período), o debate da Band (18/out) e a reta final (22 e 23/out, mais de 200 milhões de visualizações por dia).

Do lado de Flávio, o alcance estava em outro perfil. Nikolas Ferreira publicou só 31 reels no período e somou 1,79 bilhões de visualizações, 58 milhões por vídeo, quase o dobro de tudo o que o próprio candidato teve. Somados, Lula e Janones fizeram 3,21 bilhões de visualizações; Flávio e Nikolas, 2,69 bilhões. A diferença real estava na conversa: os reels de Lula tiveram 36,2 milhões de comentários e os de Janones, 28,7 milhões, contra 4,8 de Flávio e 7,3 de Nikolas. Janones pedia explicitamente aos seguidores que comentassem ("digitem soldado nos comentários"), uma forma de empurrar o vídeo no algoritmo.

Os vídeos mais vistos

Os 20 reels mais vistos dos quatro perfis entre 4 e 26/out. Passe o cursor para ver a legenda de cada um.

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O vídeo mais visto do 2º turno foi de Nikolas: "O Nordeste que foi esquecido" (20/out), com depoimentos de moradores de Luís Eduardo Magalhães (BA) contra Lula, 170 milhões de visualizações. A Meta retirou o áudio por direitos autorais, e o vídeo continuou crescendo sem som. Na cidade onde foi gravado, a margem de Lula andou +8,0 pontos entre os turnos, mais que no país (+5,6). Entre os de Lula, os mais vistos foram a propaganda "O seu voto decide" (10/out), o depoimento de Dona Déa Lúcia, mãe de Paulo Gustavo, sobre a demora das vacinas (18/out), e o anúncio do fim da escala 6x1 (14/out, à noite). Os temas que mais renderam a Lula foram trabalho, pandemia e o desafio para Flávio abrir os sigilos; a Flávio e Nikolas, segurança, o Bolsa Família, o Nordeste e os cortes dos debates.

Conversa, sentimento e plataformas

O volume total de publicações sobre os candidatos também cresceu. Pela Datrix, as menções a Lula passaram de 643 mil por dia na semana anterior ao 1º turno para 914 mil entre 19 e 22/out; as de Flávio, de 267 mil para 443 mil. A Quaest mediu a fatia dos comentários nos perfis dos dois: no dia seguinte ao 1º turno, 88% eram nos de Flávio; em 18/out, 95% eram nos de Lula. O saldo de sentimento (menções positivas menos negativas) mostra a mesma virada:

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LulaFlávioSaldo de sentimento (positivas − negativas, pontos), Datrix. Margem de erro de cerca de 5 pontos por dia.

Mas a vantagem de Lula não era a mesma em todo lugar. Na madrugada depois do debate da Band, a Palver mediu a participação do conteúdo favorável a cada um: Lula tinha 73% no X e 59% nas redes abertas, mas só 49% no WhatsApp e 41% no Telegram. Nos aplicativos de mensagem, onde circula a conversa entre conhecidos e onde o conteúdo não aparece nos rankings públicos, Flávio continuou à frente ou empatado durante toda a campanha. É uma razão para desconfiar de conclusões tiradas só do que se vê nas redes abertas.

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Conteúdo pró-LulaConteúdo pró-FlávioPalver, 20h de 18/out a 9h de 19/out.

Repercussão: debates, buscas, lives e o TSE

O retrato que sai desses números é o de duas máquinas diferentes. A de Lula foi de volume e de conversa: centenas de vídeos, um canal de mensagens com mais de 10 milhões de pessoas, comentários em massa e ocupação coordenada dos assuntos do momento. A de Flávio dependeu de poucos vídeos de alcance gigantesco, quase todos de Nikolas, e de uma presença forte nos aplicativos de mensagem. As duas alcançaram bilhões de visualizações, e as redes abertas sozinhas não explicam a virada: elas mostram onde estava a atenção, não quem mudou de voto.

8 · A Meta

A Meta e o alcance de Lula: o que está comprovado

A campanha de Lula acusou a Meta de reduzir o alcance dos seus posts. O que se sabe até 27/out:

Houve falhas técnicas que prejudicaram Lula, e não há prova de intenção. Os números das redes também mostram que, se houve perda de alcance, ela não impediu que Lula dominasse as interações a partir da segunda semana. O efeito dessas falhas no voto não pode ser medido com os dados disponíveis.

9 · Os mercados

O que os mercados preditivos perderam de vista

O Polymarket movimentou cerca de US$ 249 milhões na eleição brasileira e o Kalshi seguiu o mesmo caminho. Na manhã da votação, os dois davam cerca de 20% a Lula. O diagrama resume a cadeia de raciocínio que levou o preço até lá e os sinais públicos que ficaram de fora.

1º turno: Flávio 47,0 × Lula 45,2Pesquisas subestimaram Flávio em 3,9e quase acertaram Lula (−0,6) Leitura do mercado“As pesquisas escondem o votode direita, como em 2018” Preço: Lula de 36% a 10%4 a 9/out; abaixo de 20% em 62%das horas até o fechamento O que o erro foi de fatoTerceira via murchou: 12,3 → 7,8;o voto útil foi para Flávio Sinais públicos que ficaram fora do preço 6,0 mi de brancos e nulos no 1º turno65% votaram em Lula no 2º (+3,8 mi líquidos) 33,5 mi de ausentes no 1º turnoComparecimento subiu 1,9 ponto (+2,4 mi Lula) Redes: interações viraram 3,5 × 1Bites: 110,7 × 31,3 mi de 5 a 17/out Exército do Lula: 50 mil → 10,9 micanal de Janones; Tropa do Flávio, 2,1 mi Pesquisas andando para Lula47,9% → 49,1% dos válidos em duas semanas Fundamentos: aprovação do governodavam Lula 53% (peso zero nos modelos) Por que o preço não corrigiuBrasileiros proibidos de apostar;livro raso: US$ 41 mil moviam 19 pontos; varejo estrangeiro e cripto;âncora em 2022 (pesquisas tinhamsuperestimado Lula) e no 1º turno Urna: Lula 51,8 × Flávio 48,2

1. Leram o erro errado

O mercado tratou o erro do 1º turno como prova de um viés permanente contra a direita, reforçado pela memória de 2018 e de 2022, quando as pesquisas superestimaram Lula. Não era: o erro de 2026 no 1º turno foi a terceira via perdendo votos para Flávio na última hora, e o voto de Lula estava certo. No 2º turno, sem terceira via, não havia de onde esse erro sair outra vez.

2. Ignoraram o estoque de votos sem dono

Seis milhões de brancos e nulos e 33,5 milhões de ausentes eram públicos desde a noite de 4/out. O perfil deles (menos escolaridade, mais pobres, mais no Nordeste e nas periferias) é o do eleitor de Lula. A conta de que esse estoque podia render alguns milhões de votos a Lula não exigia nenhum dado privado.

3. Olharam só para as pesquisas

Os sinais fora das pesquisas apontavam todos para o mesmo lado e eram públicos: as interações nas redes viraram de 84 × 74 para 111 × 31 milhões; o índice de popularidade digital da Quaest cruzou a favor de Lula antes de 15/out; o canal de Janones foi de 50 mil a 10,9 milhões; as buscas por "onde votar" cresceram muito na última semana; e o modelo de fundamentos, só com a aprovação do governo, dava 53% a Lula. Nenhum desses sinais é bom sozinho, mas, juntos, contradiziam um preço de 10% a 20%.

4. Um mercado sem quem conhecia o país

Brasileiros estavam proibidos de apostar, e o preço foi formado sobretudo fora do país, por um público de varejo ligado a criptomoedas, em boa parte com simpatia pela direita, segundo os próprios operadores ouvidos pela imprensa. O livro era raso: na tarde da eleição, US$ 41 mil em vendas moviam 19 pontos. Num mercado assim, a informação local que poderia corrigir o preço não chega, e o preço não mede a opinião de quem acompanhava a campanha de perto. As cotações ainda foram usadas na campanha de Flávio como se fossem pesquisa.

5. Calibração: 20% acontece

A defesa dos operadores é que um evento de 20% acontece uma vez em cada cinco, e isso é verdade. Mas o problema não foi só o resultado: foi o preço ter ficado abaixo de 20% durante a maior parte do 2º turno, enquanto todos os sinais fora das pesquisas andavam para Lula. A pontuação de Brier, que mede o acerto de uma probabilidade (0 é o acerto perfeito; uma moeda faz 0,25), mostra o tamanho do erro de cada previsor na véspera.

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O Placar também errou. A manchete do Placar dava 18% a Lula na véspera; o MCMC, 22%. O modelo de fundamentos, que dava 53%, tinha peso zero desde a auditoria de 3/out, porque uma reta ajustada em três eleições erra mais de 8 pontos. Os modelos de agregação partem das pesquisas e herdaram o erro delas. A lição para o próximo ciclo é a mesma dos mercados: o erro das pesquisas não tem direção fixa, e sinais que as pesquisas não captam, como o estoque de brancos, nulos e ausentes, precisam de um lugar explícito no modelo. A seção 11 detalha por que o MCMC errou e a projeção da apuração acertou.
10 · O mapa

A virada, o comparecimento e os jovens, município a município

Escolha o que pintar. A virada foi positiva para Lula em quase todos os municípios. O comparecimento subiu em quatro de cada cinco, mas caiu em boa parte do Norte, onde Flávio perdeu votos entre os turnos. O mapa dos jovens mostra onde o eleitorado de 16 a 24 anos pesa mais, sobretudo no Norte e no Nordeste.

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11 · Os modelos

Por que o MCMC errou e a projeção da apuração acertou

O Placar rodou dois modelos sobre o 2º turno. Antes da eleição, um modelo bayesiano estimado por MCMC (cadeias de Markov de Monte Carlo) juntava todas as pesquisas e dava 22% a Lula. Na noite de 25/out, outro modelo lia os boletins de urna do TSE à medida que chegavam e projetava o resultado final. O primeiro errou o vencedor; o segundo cravou Lula às 19:44, com 13,3% das seções apuradas, quando a contagem ainda estava praticamente empatada.

O que o MCMC fazia

O MCMC trata cada pesquisa como uma medida ruidosa de uma intenção de voto que muda devagar ao longo dos dias. Ele estima, ao mesmo tempo, a trajetória dessa intenção, o "efeito de casa" de cada instituto (a tendência de um instituto a dar sempre um pouco mais para um lado), o ruído extra de cada um e um erro sistemático comum a todas as pesquisas. Os efeitos de casa são medidos em relação a um grupo de institutos de referência (AtlasIntel, Datafolha, Ipespe, MDA, Parana Pesquisas, PoderData, Quaest), cuja média é tratada como neutra. A convergência foi boa (R̂ máximo de 1,014). O problema não foi o amostrador, foram três escolhas de modelagem:

O gráfico mostra a previsão como rodou na véspera e o que teria acontecido com outras hipóteses para o erro comum. Cada barra vai do percentil 10 ao 90 da margem final; o círculo é a mediana. À direita, a chance de Lula e a probabilidade que o modelo dava a um resultado igual ou melhor que o real.

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Cenários aproximados: a margem final é o nível das pesquisas menos o erro comum, com o nível calibrado para reproduzir a mediana e o percentil 90 do MCMC e o erro comum com distribuição t de Student (5 graus de liberdade). Só muda a hipótese sobre o erro comum.

Sem o desconto e com a incerteza que se usava no 1º turno, a chance de Lula subiria para 43%. Nenhuma versão razoável de um modelo feito só de pesquisas daria Lula como favorito: o problema estava nos dados, e o modelo não tinha como enxergar. O que ele podia fazer melhor era reconhecer que cinco eleições são pouco para estimar o tamanho do erro possível. Com o desvio de 2,0, o resultado real tinha 1,4% de chance; com o do 1º turno, 11,6%.

O que a projeção da apuração fazia

A projeção ao vivo não usa nenhuma pesquisa. A cada ciclo de poucos minutos, ela compara os votos de cada seção já apurada com os votos da mesma seção no 1º turno e mede a mudança (o "swing", calculado em logit). Essa mudança é estimada em níveis: país, região e estado, com cada estado puxado para a média da região quando ainda tem poucas urnas. Depois, aplica-se a mudança estimada aos votos do 1º turno das seções que ainda não chegaram. O que ainda não chegou é corrigido pela ordem de chegada do próprio 1º turno: o modelo sabe que o Nordeste e o interior costumam ser apurados antes. A incerteza vem de reamostrar estados (bootstrap).

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Projeção ao vivo, com faixa de 80%Margem na contagem do TSE

Às 19h07, com 1,6% das seções apuradas, a projeção já estava em Lula +3,6; o resultado final foi +3,6. Entre 19h45 e 20h23, a contagem mostrou Flávio à frente, porque a ordem de chegada das urnas favorecia Flávio naquele momento. A projeção nunca passou para o lado de Flávio: desde as 19h07 ela ficou entre Lula +3,5 e +6,1 e foi convergindo para o resultado. O erro médio da projeção, a partir de 5% apurado, foi de 0,35 ponto; a partir de 20%, 0,15. Nos ensaios com a apuração de 2022 e com a do 1º turno de 2026, o erro médio tinha sido de 0,26 e 0,13 ponto.

Por que um acertou e o outro não

MCMC das pesquisas (véspera)Projeção da apuração (ao vivo)
O que observaO que entre 2 e 15 mil entrevistados dizem que vão fazerO que dezenas de milhões de eleitores fizeram, urna por urna
ComparaçãoEntre institutos e ao longo do tempoA mesma seção no 1º e no 2º turno: o mesmo bairro, a mesma escola
Quem votaPrecisa supor quem vai votar, como votam os brancos, nulos e indecisos e como pesar a amostraNão supõe nada: o comparecimento e os brancos e nulos já estão nos boletins
Erro comumNão pode ser estimado; vem do histórico de cinco eleiçõesNão existe: não há entrevista, só voto. O risco é a ordem de chegada das urnas, que o modelo corrige
Incerteza dominanteO viés comum das pesquisas (todo o peso da variância)Quanto os estados ainda não apurados diferem dos já apurados, que cai a cada minuto
ValidaçãoCinco eleições, com erros pequenos e de sinal alternadoReprodução das apurações de 2022 e do 1º turno de 2026, minuto a minuto
Resultado22% para Lula; mediana Flávio +1,5Lula desde 19h07; cravado às 19:44; final +3,6

A diferença essencial é a mesma que separa um levantamento de intenção de um registro de comportamento. O MCMC é tão bom quanto as pesquisas que agrega, e em 2026 todas elas tinham o mesmo ponto cego: o eleitor que não tinha escolhido ninguém no 1º turno. A projeção ao vivo mede a mudança de comportamento diretamente, na mesma urna, e por isso viu desde o primeiro minuto o que as pesquisas não captaram: uma virada de cerca de 5,6 pontos, e não de 0,2.

E os outros sites

O Placar não errou sozinho. Nenhum modelo, agregador ou mercado publicado antes da abertura das urnas deu Lula como favorito: as chances iam de 18% a 29,5%. As mais altas vieram de quem deu menos peso às pesquisas, como o DataPolicy (24% de fundamentos), o On Point Politics (35% de transferência de votos do 1º turno, sem efeito de casa) e o modelo de fundamentos do Cepesp-FGV, que não usa pesquisa. As mais baixas vieram de quem corrigiu as pesquisas pelo erro do 1º turno, como o Scoras e a Opinião Inteligência Política, que somaram pontos a Flávio. O DataPolicy dava cerca de 1,8% de chance a um resultado como o que saiu; o MCMC do Placar, 1,4%. Entre as médias simples, a do Poll+Trend foi a mais próxima (Flávio +0,1), mas também do lado errado.

Site ou modeloMétodoChance de LulaMargem de LulaData
Placar 2026 (manchete)Espaço de estados com efeitos de casa, viés histórico e voto do 1º turno; 25% de mercado18%−2,124/outfonte
Placar 2026 (MCMC)O mesmo modelo, com o posterior completo por MCMC22%−1,524/outfonte
ScorasMédia ponderada (meia-vida de 4 dias), corrige cada instituto pela metade do erro do 1º turno, rejeição e voto potencial, 200 mil simulações19%−3,425/outfonte
Cepesp-FGV (híbrido)Sem pesquisas: votação do 1º turno, distância ao 2º e proximidade ideológica dos eliminados, 287 disputas19%−4,47/outfonte
Opinião Inteligência PolíticaMédia de 26 pesquisas com 0,5 ponto a favor de Flávio pelo viés histórico21%−3,419/outfonte
IPPI / Café QuenteMédia com cenários de erro de 5 pontos (o site diz que não é previsão)25%–17/outfonte
DataPolicy (Panorama Eleitoral)55 pesquisas, efeito de casa e recência; 76% pesquisas e 24% fundamentos27%−1,424/outfonte
On Point Politics65% média das pesquisas e 35% transferência do 1º turno, sem efeito de casa, 40 mil simulações28%−2,024/outfonte
Cepesp-FGV (RPA)Sem pesquisas: votação e distância do 1º colocado no 1º turno30%−2,27/outfonte
PolymarketMercado de previsão com dinheiro real (sem apostadores brasileiros)20%–25/out 8hfonte
KalshiMercado de previsão regulado nos EUA20%–25/outfonte
Poll+TrendMédia de pesquisas (método não publicado)–−0,124/outfonte
PollsterGraphMédia de pesquisas–−1,824/outfonte
UOLMédia de pesquisas–−2,024/outfonte
Transmissão PolíticaMédia simples de 14 pesquisas–−2,317/outfonte
Monitor Eleitoral (Inteligov/Exame)Média móvel ponderada por método e data–−3,016/outfonte

Previsões finais publicadas antes da abertura das urnas, com a fonte de cada linha em analise-previsoes/dados/outros_modelos.csv. "–" quando o site não publicou o número.

Carregando o gráfico…

PlacarOutros modelosSó fundamentosMercados

Durante a apuração foi o contrário. A projeção do Placar e a de Rodrigo Mahlmeister, publicada pelo Estadão e pela TVT, usam o mesmo princípio, o swing na mesma seção, e chegaram ao mesmo lugar quase no mesmo minuto. O modelo de Mahlmeister, que inspirou o do Placar, projetou Lula com 51,6% às 19h15, com 2,4% das urnas apuradas; o do Placar, Lula com 51,8% às 19h07, com 1,6%. O resultado foi 51,79%. O Polymarket virou para Lula às 19h09, ao mesmo tempo, provavelmente lendo as mesmas urnas do Nordeste que chegavam primeiro. A contagem crua do TSE só passou para Lula depois das 20h23.

Considerações finais

O que 2026 ensina, e o que um modelo MCMC precisa aprender

A eleição de 2026 terminou com um resultado que quase ninguém previu e que, olhado de perto, estava escrito nos dados públicos. O fio que liga as seções deste artigo é um só: o eleitor que, no 1º turno, não tinha escolhido nenhum dos dois.

O erro

As pesquisas erraram o 2º turno por 5,3 pontos de margem, todas para o mesmo lado, coisa que não acontecia desde pelo menos 2006. O erro não foi de método nem de instituto: telefone, entrevista presencial e painel online erraram juntos. Ele também não foi o mesmo do 1º turno. Lá, as pesquisas subestimaram Flávio porque a terceira via perdeu votos na última hora; no 2º turno, subestimaram Lula porque não captaram quem tinha anulado, votado em branco ou ficado em casa.

Onde estavam os votos

Os 6,0 mi de brancos e nulos e os 33,5 mi de ausentes do 1º turno renderam a Lula 6,3 mi de votos líquidos, mais que a diferença final entre os dois (4,4 milhões). A virada foi maior nas seções com mais brancos e nulos e com menos escolaridade, e o comparecimento subiu como não subia desde pelo menos 2014.

As duas hipóteses

Os dados sustentam as duas, em partes. Houve uma mobilização que nasceu de baixo nos dias seguintes ao 1º turno, entre fãs, voluntários e atos de rua, e que o canal de Janones organizou sem controlar: ele foi de 50 mil a 10,9 mi de seguidores depois do pedido de Lula. Houve também uma mudança de formato da campanha, para vídeos simples, criadores de conteúdo e redes, que virou as interações a favor de Lula sem gasto com anúncio. Mas o voto que essa energia trouxe veio sobretudo do eleitor menos escolarizado e do que não tinha escolhido ninguém; os jovens viraram um pouco mais, sem ir mais às urnas, e os fandoms foram mais adesão espontânea que estratégia.

A Meta

Houve falhas técnicas que prejudicaram Lula e que a própria empresa admitiu, e o TSE determinou isonomia. Não há prova de interferência deliberada, e as falhas não impediram que Lula dominasse as redes a partir da segunda semana.

Os mercados e os modelos

O Polymarket, o Kalshi, o Placar e todos os outros modelos encontrados deram entre 18% e 29,5% a Lula. Os mercados acrescentaram ao erro das pesquisas a leitura errada do 1º turno, a falta de apostadores brasileiros e um livro raso. Os modelos herdaram o erro das pesquisas e, em vários casos, o agravaram ao descontar delas o erro do 1º turno. Só a projeção feita com os votos de verdade, seção a seção, viu a virada desde o primeiro minuto da apuração.

As melhorias para o MCMC

O MCMC não falhou como técnica: ele fez exatamente o que foi especificado, e a especificação partia de uma premissa que 2026 desmentiu, a de que o erro das pesquisas é pequeno, tem sinal conhecido e só pode ser estimado olhando as eleições passadas. Os sinais que ficaram de fora estavam disponíveis antes da votação. Seis mudanças permitiriam que um modelo bayesiano os incorporasse na próxima eleição.

  1. Um erro comum com cauda realista e sem sinal imposto. Cinco 2º turnos não bastam para estimar o tamanho do erro possível. O desvio do erro comum deveria vir de uma base muito maior, com um modelo hierárquico que junte as eleições presidenciais, os 2º turnos de governador desde 2006 e eleições de outros países com pesquisas parecidas, e com uma distribuição de cauda pesada estimada, não fixada. O desconto de um único ciclo (as pesquisas tinham superestimado Lula em 2022) não deveria virar uma média com sinal: o sinal do erro troca de uma eleição para outra, como trocou entre o 1º e o 2º turno de 2026.
  2. O estoque de votos sem dono como parte do modelo. Brancos, nulos, indecisos e ausentes do 1º turno precisam entrar como quantidades com distribuição própria, e não como um resíduo que some na conta dos votos válidos. Já na noite de 4/out, o resultado por seção mostrava que os brancos e nulos se concentravam nas seções mais favoráveis a Lula (4,0% nas mais favoráveis a Flávio, contra 5,2% nas mais favoráveis a Lula, dentro da mesma cidade). Um modelo de transferência estimado com esses dados, e com o perfil do eleitorado de cada seção, teria dado aos brancos e nulos e aos ausentes uma inclinação para Lula, em vez de repetir a hipótese das pesquisas.
  3. O comparecimento como incerteza explícita. O comparecimento costumava cair do 1º para o 2º turno; em 2026 subiu quase dois pontos. O modelo deveria sortear cenários de comparecimento por região e por perfil de seção, ligados à margem, em vez de herdar a hipótese de eleitor provável de cada instituto.
  4. Sinais de fora das pesquisas, com peso aprendido. Engajamento nas redes, índices de popularidade digital, buscas por "onde votar", aprovação do governo e mercados podem entrar como medidas ruidosas da mesma intenção de voto, cada uma com sua escala e seu ruído estimados nas eleições anteriores (um modelo de medida com vários indicadores). Sozinhos eles não servem; juntos, e com peso estimado, avisam quando as pesquisas se descolam de tudo o mais. Em 2026 todos esses sinais apontavam na mesma direção, e o modelo não tinha onde colocá-los.
  5. Efeitos de casa que mudam com o método e com o turno. Institutos que passaram a pesar a amostra pelo voto declarado no 1º turno (a Palver na onda 7, a Ipespe) mudaram de série no meio da campanha. O efeito de casa deveria ter uma quebra possível no 1º turno e um componente por método (telefone automático, entrevista presencial, painel online), com variação estimada, para que o modelo não trate como neutro um grupo de referência que erra junto.
  6. Validação fora da amostra e ligação com a apuração. Antes de publicar, o modelo deveria ser testado nos 2º turnos estaduais e em reproduções de eleições passadas, com verificação de calibração (o resultado real deveria cair, ao longo de muitas eleições, abaixo do percentil 10 em uma de cada dez). E a previsão da véspera deveria ser a distribuição inicial da projeção da apuração, que a corrige com os primeiros votos, como o Placar já fez em 25/out.

Nada disso garante acertar o vencedor numa eleição decidida por 3,6 pontos. O que essas mudanças fazem é impedir que um modelo dê 1% de chance a um resultado que estava ao alcance dos dados públicos, e esse é o critério pelo qual uma previsão probabilística deve ser julgada.

Método, limites e dados

Como as contas foram feitas

Página inicial do Placar · O que deu a vitória a Lula · A virada bairro a bairro · Editorial e painel do resultado